22.3.05

Reinvenção

"A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... - mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada."
(Cecília Meireles)

16.3.05

Transpiro-te

Faltava-me o ar
Nessas noites de suor
Faltava-me o sonho
Nessas noites de pesadelos
Faltava-me o aconchego
Nessas noites solitárias

Faltava-me o boa noite
Nessas noites de silêncio
Faltava-me o cheiro
Nessas noites inodoras
Faltava-me acordar
Nessas noites onde só durmo

Agora transpiro-te
O que era dor,
Agora passo a chamar amor
E o que era falta,
Agora passo a chamar presença
Transpiro-te e adormeço.