25.1.05

Incipit tragoedia

Coral de mil vozes.
Corifeu à frente.
O sentimento: eudemonia.
Platéia em silêncio.
Silêncio.
Espera e silêncio.

Não entra Antígona.
Nem Creonte.
Quem entra sou eu.
No palco trágico do sentir.

Sófocles se espanta
“Que amor é esse maior
Do que por mim outrora descrito?”
“Quem é essa que chora a ansiedade?”

Respondo em ditirambos.
Quem chora sou eu.
Quem ama sou eu.
Não é mito o meu sofrer.
É o aguardo, a espera
A razão do meu padecer.

De longe grita Antígona:
“Nasci para compartilhar amor, não ódio.”
Mas Creonte responde:
“Se tens de amar,
Então vai para o outro mundo, ama os de lá.”

Respondo, mas não mais em ditirambos.
É tua culpa o meu viver,
O meu sofrer,
E o meu chorar.
Incipit parodia.

24.1.05

Razão de ser

"Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?"
(Paulo Leminski)

Amor fati

E se não houvesse escolha?
E se a encruzilhada sempre findasse no mesmo lugar?
E se o mal e o bem não fossem antagônicos,
Mas sim sinônimos?
E se não existisse segunda chance, nem primeira?
E se a ilusão fosse a rainha do seu xadrez?
E o desencanto o seu rei?
E se não houvesse casulo?
E se a metamorfose não fosse uma opção?
Te pergunto com urgência –
E se eu for a sua única opção?
Ah, se tu fosses a minha – amor fati.
Escolhe teu destino.
Ama teu destino.

21.1.05

Iatrogenia

Pontada – calafrio - tremor
Pesado o meu sofrer
Disseram que era enxaqueca
Nietzsche fui ler
Iatrogenia

Câimbra – estalo - idade
Me deixa quieta, por favor!
É sedentarismo, filha. Pára de fumar.
Parei. Caminhei. Corri. Voei.
Iatrogenia.

Medo- angústia – chôro
Acho que meu mal é da alma
Disseram que era solidão.
Dou-lhe uma, duas, três.
Iatrogenia.

É cegueira ou é loucura?
Decida-se!
Não, chega de erro médico.
Meu mal é te querer borboleta
E te ter apenas lagarta.
" Na dúvida , faça.
O risco faz parte.
A graça está
em tentar,
em vez de sentar e assistir;
a vida está
em esticar-se todo pra atingir;
o mundo está
no desafio da interrogação.
E por que não?
Entre na festa,
arranque a capa,
morda a maçã.
Desate o cinto
para voar pelo amanhã,
ainda que ele seja um labirinto.
Pois que viver
não é entrar no mar onde dá pé,
mas mergulhar com fé no maremoto."
(Flora Figueiredo)

20.1.05

Foi ali

Ali mesmo
No acaso
No ordinário
Cotidiano
Te vi – vi sim, não era cega.

Ali mesmo
No insano
No profano
Indesculpável
Te quis – quis sim, não era louca.

Ali, já perdida na impressão que tive
Decidi escolher a cegueira e a loucura
(Para serem meu consolo e repouso)
Depois que percebi que te ver e te querer
È muito pra mim.

Um homem com uma dor

"um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante"
(Paulo Leminsk)

14.1.05

Já sei o que quero

Quero um amor maior...
Um amor maior que o meu, que o seu.
Maior que o dele, que o dela, que o dela
E o dela também.
Um amor que não faça sentido algum.
Que pro mundo seja uma loucura.
E na sua insensatez me arrebate.
Quero um amor maior...
Um amor maior do que o medo.
Que desbrave o desconhecido e o intangível.
Amor intrépido que corre e não se cansa,
Que não conhece a fadiga e
Sobre o desânimo nunca ouviu falar.
Que no fim sempre encontra fôlego para voar.
Quero um amor maior...
Um amor maior do que a ilusão.
Que não se esconda em conceitos
Nem na experiência alheia.
Amor sem padrão e
Com um fundamento apenas –
A verdade.
Quero um amor maior...
Um amor maior do que cantaram.
Maior do que falaram.
Maior do que pintaram.
Maior do que imaginaram.
Maior do que traduziram
E sem sucesso fingiram.
Quero um amor maior...
Um amor que tudo sofre,
Que tudo crê,
Que tudo espera
...Tudo suporta.
Já sei o que quero –
Me desculpem os loucos,
Mas o que quero é Amor.

13.1.05

- Dói, muito.

Meu coração está rasgado.
Já não corre sangue nas minhas veias.
Já não entra ar em meus pulmões.
Não existem mais as cores,
Nem mesmo os girassóis.
O som da chuva não escuto.
Muito menos o meu coração batendo.
Grito, em desespero: tá doendo.

10.1.05

Tambaú 53 ou Canção dos exílios concêntricos

"Mas onde fica Tambaú ?

Tambaú fica tão longe
na outra beira do mar
lá onde tem areia fina
gostosa de se andar
jangada água de coco
pitomba e mungunzá

Mas onde fica Tambaú ?

Tambaú fica tão longe
na outra beira do mar
lá onde tem lampião
pra espantar o escuro
linda luz de lampião
gostosa de se cheirar

Mas onde fica Tambaú ?

Tambaú fica tão longe
na outra beira do mar
lá onde tem sotaque
feito para se cantar
aquele sotaque gostoso
que me ensinou a falar.

Mas onde fica Tambaú?

Tambaú fica tão longe
na outra beira do mar
na outra beira da vida
na dor do meu lembrar".
(Wanda Lins)

4.1.05

Acordei Adélia

Hoje acordei mais cedo do que de costume.
Mudei a rotina - levantei do outro lado da cama,
não tomei banho quente, nem frio,
deixei a Golda de lado
e fui na chuva ônibus tomar.
Agora li Adélia Prado...
"As galinhas com susto abrem o bico
e param daquele jeito imóvel
- ia dizer imoral -
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito." (Adélia Prado)
Descobri: acordei Adélia.